Córregos enterrados

Já não temos tantas áreas verdes e natureza quanto precisaríamos ter na cidade de São Paulo. Quando pensamos nos nossos rios, os mencionados são o Tietê e o Pinheiros, infelizmente lembrados pelo mau cheiro, pela poluição ou pelas enchentes. Na verdade, São Paulo está implantada sobre uma rede hídrica bastante abundante.

“Ninguém pensa que São Paulo está lotada de rios, porque rio não morre. Eles ficam doentes, arrebentados, totalmente enterrados. Enterrados vivos”, explica Luiz Campos Jr., que organiza expedições com o grupo do Projeto Rios e Ruas pela cidade.

Sob o asfalto de ruas famosas, como a Domingo de Moraes, a Bernadino de Campos e a 23 de Maio, existem milhares de minas de água e córregos que correm em direção aos rios Pinheiros e Tietê.

Na região de Pinheiros, por exemplo, há três rios expressivos que nascem próximos do espigão, entre as ruas Cerro Corá e Paulista e já estão canalizados. Com a canalização perdemos contato com esses rios, que, se despoluídos, poderiam compor belamente a paisagem urbana. Além disso, aumenta-se o risco de enchentes, pois reservamos aos rios espaços muito restritos, sujeitos a entupimentos e obstruções de difícil detecção.

corregos enterrados

A avenida Sumaré e a Paulo VI,vale do rio Verde, antes e depois da urbanização dominar a Pinheiros.

Temos o totalmente encoberto córrego Belini, um rio relativamente curto, cuja nascente fica um pouco acima da praça Panamericana e corta o Alto de Pinheiros, atravessando a avenida Pedroso de Moraes e passando rente ao Parque Villa-Lobos. Um pouco mais à leste está o rio das Corujas, que nasce na travessa Raul Seixas, no bairro de Vila Madalena. Um pequeno trecho desse córrego, já junto à rua Natingui, corre a céu aberto, caso raro, visto que 90% dos rios estão sob asfalto. Neste trecho, pode-se perceber que o córrego tem águas relativamente limpas, o que demonstra o sucesso das estratégias de saneamento que adotam metas de qualidade da água, como no programa Córrego Limpo, que lamentavelmente ainda é muito restrito na cidade.

O maior córrego da região é o rio Verde, com inúmeras nascentes dispersas no bairro e bastante identificáveis. Suas minas de água formam dois córregos que se juntam na Av. Rebouças.

Ao todo são 1.500 km de rios, riachos e córregos espalhados por São Paulo, mas a maior parte está canalizada e presa embaixo da terra, fazendo com que a grande maioria dos paulistanos suponha que já não existam mais.

A 4ª Edição da Revista Quanta (nas bancas) traz uma matéria sobre as bacias hidrográficas por nós desconhecidas e que compõem o território da cidade de São Paulo.

“É difícil dizer com precisão, mas estima-se que São Paulo tenha cerca de 300 rios passando por baixo de suas ruas. Mas a população de São Paulo está acostumada com o asfalto e nem imagina que a região tem tanta água fluindo em seus subterrâneos”, diz o educador e geógrafo Luiz de Campos Jr., que, juntamente com o arquiteto urbanista José Bueno e a botânica autodidata Juliana Gatti, fundou o Projeto Rio e Ruas.

A matéria explora a proposta do Rios e Ruas de percorrer o trajeto de ruas que passam por cima dos rios, fala sobre os impactos da urbanização na cidade, apresenta sugestões de diretrizes de política de drenagem urbana, comenta outros dois projetos ousados de utilização dos cursos de água paulistanos e cita a Águas Claras.

O Rio Pinheiros foi essencial para o crescimento, a ocupação e a urbanização da metrópole, trazendo riqueza para cidade. Transformando-o em mero canal de afastamento de dejetos, a cidade perde em qualidade, em paisagem, em atratividade e acolhimento. Mas ainda é possível recuperá-lo para que volte a ser sinônimo de vida e prosperidade, melhorando o transporte, o turismo e o clima, criando locais de lazer e cultura.

Saber da existência desses córregos que hoje estão enterrados, conhecer a rede de drenagem e sua história, atuar pela sua recuperação são parte do esforço para voltarmos a ter orgulho e cuidar desse patrimônio: a bacia hidrográfica do Rio Pinheiros.

Assista ao vídeo “Sobre Rios e Córregos” abaixo, de Lucy e Luiz Carlos Barreto e saiba mais.

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