Mudando os paradigmas da gestão da drenagem metropolitana

Por Stela Goldenstein*

cronologia hidroanel

As obras e as ações de gestão da drenagem metropolitana pautaram-se historicamente por dois usos principais da água: a produção de energia e o controle de enchentes. Trata-se de usos relevantes e indispensáveis, não há como duvidar. No entanto, pode-se dizer que, tendo em vista apenas esses dois usos, algumas outras prioridades deixaram de ser atendidas.

Atualmente, está em discussão um projeto proposto pelo Governo do Estado que pode, de fato, mudar os paradigmas do uso da água na região metropolitana de São Paulo, estabelecendo uma moldura conceitual em cujo âmbito há uma grande quantidade de projetos e ações.

A base de toda a ideia é a noção de que as águas de boa qualidade, ainda existentes na região, e localizadas principalmente nas cabeceiras do Tietê, são preciosas e devem ser muito bem utilizadas. Hoje contamos com as represas de Taiaçupeba, Jundiaí e Ponte Nova, em Suzano e Mogi das Cruzes. Parte de suas reservas é aduzida pela Sabesp e utilizada para abastecimento público, que é o mais nobre de todos os usos. Entretanto uma parcela importante das águas dessas represas é lançada Tietê abaixo. Com isso, temos dois efeitos negativos: de um lado, desperdiçamos água de ótima qualidade, misturando-a com a pesada carga de poluição desse rio. De outro, lançando no Tietê as águas da represa, mantemos o rio em níveis altos, o que contribui fortemente para as inundações em vários bairros, uma vez que os diversos afluentes são “barrados” em sua chegada ao Tietê, ficando represados a montante.

Se levarmos uma parcela maior de água de boa qualidade, desde Taiaçupeba até a Billings, teremos muitos ganhos. Para isso, é necessária a construção de um canal, que pode ser navegável ‑ o que constitui uma primeira vantagem, pois o transporte hidroviário causa pouca poluição, reduz congestionamentos etc.

Também ampliaremos a capacidade de captação de água de boa qualidade pela Sabesp para os municípios da região, o que é outra vantagem. Parte dessa água pode, ainda, ser utilizada para produção energética em Henry Borden, sem os efeitos negativos da água que hoje, por vezes, produz energia, muito poluída por ser oriunda do Rio Pinheiros.

Além disso, teremos na Billings água para lançar pelo Rio Pinheiros abaixo, e isso é uma imensa vantagem, pois permitirá a melhoria imediata da qualidade das águas desse rio, para grande alívio dos paulistanos. Permitirá, ainda, que esse rio seja navegável!

Essa perspectiva é parte do ambicioso projeto do Hidroanel Metropolitano, que começa a ser apresentado e discutido pela sociedade, uma vez que o seu estudo de pré-viabilidade técnica, econômica e ambiental foi concluído.

Trata-se de um conjunto de cerca de 117 quilômetros de hidrovia, envolvendo os Rios Tietê e Pinheiros e as represas Billings e Taiaçupeba, de forma a criar um verdadeiro anel no entorno da região tão densamente urbanizada. Foram previstas obras para permitir a navegação e para estabelecer estruturas de apoio à logística fluvial, permitindo que circulem pelos rios parte importante da imensa quantidade de caminhões que hoje congestionam a cidade.

De forma inusitada, o projeto articula o transporte hidroviário, a despoluição das águas, o controle de enchentes, a criação de parques, o aumento da capacidade de abastecimento de água para uso da população e de produção energética em São Paulo.

*Stela Goldenstein é diretora executiva da Águas Claras

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