As cidades e seus rios

Por Sílvio dos Santos*

Historicamente, as cidades sempre tiveram em seus rios aliados importantes para o abastecimento tanto de produtos agrícolas, de pescados e de água, além de seu meio de transporte e fator de desenvolvimento econômico e social. Mesmo após 1825, ano da construção da primeira estrada de ferro na Inglaterra, a navegação fluvial era importante e nas áreas ribeirinhas estavam localizadas as principais atividades comerciais, portuárias, administrativas, esportivas, de lazer e turismo. Enfim, o rio era o estruturador urbano de todas essas atividades e suas margens eram atrativas e valorizadas.

Na Europa, muitas das grandes cidades foram fundadas nas margens dos principais rios e há séculos convivem harmoniosamente, depois de um período crítico pós-revolução industrial, época que aconteceram as primeiras manchas de despejos nas águas, tanto industrial como por esgotos dos centros urbanos. Como sinal de alerta do perigo dessas práticas poluidoras, ações foram realizadas nos rios Reno, Sena e principalmente no Tamisa.

Paris tem seus principais monumentos e construções localizados nas margens do Rio Sena, como a Torre Eiffel na rive gauche (margem direita), o museu do Louvre na rive droite (margem direita) e mesmo a Catedral de Notre Dame na ilha fluvial Île de la Cité, interligada às duas margens por magníficas pontes.

Quadro Régate à Argenteuil de Claude Monet, retratando o Rio Sena. Por Felizberto Ranzini.

Quadro Régate à Argenteuil de Claude Monet, retratando o Rio Sena. Por Felizberto Ranzini.

Londres com o Big Ben, o Parlamento e a Abadia de Westminster debruçados nas margens do Rio Tamisa, onde também se destacam a Ponte de Londres como um marco histórico e a London Eye, roda gigante colossal que marca a modernidade. Ao longo do Rio Reno, Basileia na Suíça, Estrasburgo na França, Frankfurt, Colônia e Bonn entre outras na Alemanha, têm no Reno o eixo de transporte e desenvolvimento. São incontáveis outras cidades como Hamburgo, Rotterdam, Budapeste, Nova Iorque, Buenos Aires, que são emolduradas pelos seus rios e os têm como aliados.

Pintura do Rio Tietê próximo à Ponte do Anastácio, na Freguesia do Ó, cuja igreja se destaca à esquerda. Por Felizberto Ranzini.

Pintura do Rio Tietê próximo à Ponte do Anastácio, na Freguesia do Ó, cuja igreja se destaca à esquerda. Por Felizberto Ranzini.

Pintura da Ponte Grande sobre o Rio Tietê. Por Felizberto Ranzini.

Pintura da Ponte Grande sobre o Rio Tietê. Por Felizberto Ranzini.

A Ponte das Bandeiras em final de construção na década de 40, ao lado da Ponte Grande, como parte da retificação do canal do Rio Tietê.

A Ponte das Bandeiras em final de construção na década de 40, ao lado da Ponte Grande, como parte da retificação do canal do Rio Tietê.

Clubes localizados na Chácara Floresta junto à antiga Ponte Grande sobre o Rio Tietê, antes da canalização.

Clubes localizados na Chácara Floresta junto à antiga Ponte Grande sobre o Rio Tietê, antes da canalização.

Entretanto, essa simbiose que ocorre entre as cidades e seus rios, não acontece em nosso país, como em Recife com o Rio Capibaribe, em Porto Alegre com o Rio Guaíba e principalmente em São Paulo com seus rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí. A escolha do sítio foi estratégica nos contrafortes do Pátio do Colégio, e a bacia fluvial permitiu as entradas e bandeiras ultrapassar os limites do Tratado de Tordesilhas com a utilização da correnteza dos rios em direção ao sertão (interior). Esses rios foram o embrião da pequena Vila de São Paulo e ao longo dos anos estruturaram a Grande Metrópole Brasileira. Muitas marcas do passado ainda mostram a forte relação da São Paulo antiga com seus rios como a Ponte das Bandeiras com suas altas torres se destacavam nas verdes várzeas, estas serpenteadas pelos antigos meandros, o velho Mercado Público junto à Ladeira Porto Geral, antigo porto do rio Tamanduateí, a Estrada das Boiadas no Rio Pinheiros, caminho do gado que vinha do sul, e notadamente os clubes esportivos como o Espéria, Tietê, São Bento, Estrela, São Paulo de regatas e também o de futebol no antigo Canindé, Corinthians e Palmeiras, não o antigo Palestra Itália, mas a associação atlética, entre outros, localizados nas margens do rio onde eram realizadas as provas de natação e remo nas límpidas águas do Rio Tietê. Mesmo o Pinheiros, antigo Germânia, na rua Iguatemi dentro da Chácara Itaim, nas margens do Rio Pinheiros, praticava o remo, pois antes da retificação tinha acesso direto às águas do rio.

Prova de natação no Rio Tietê junto à antiga Ponte Grande, substituída em 1942 pela Ponte das Bandeiras.

Prova de natação no Rio Tietê junto à antiga Ponte Grande, substituída em 1942 pela Ponte das Bandeiras.

Ao longo do século passado, a cidade virou de costas para seu berço natal, utilizando-os como esgoto a céu aberto, depósito de lixo e grandes eixos viários congestionados. O odor irrespirável, o ruído ensurdecedor e a paisagem árida sem nenhuma vegetação ciliar compõem um retrato feio, mostrando que estamos errados e necessitamos urgentemente mudar para o caminho certo: começar a resgatar nossos rios!!!

Como é impossível retornar às paisagens bonitas retratadas pelos quadros de Felizberto Ranzini mostradas acima, as quais tiveram a mesma arte e inspiração de Monet, quando este pintava as regatas do Rio Sena em Paris, vamos nos empenhar ao menos para tornar límpidas as águas de nossos rios.

Clube de Regatas São Paulo na primeira década do Século XX, onde hoje está o Clube de Regatas Tietê.

Clube de Regatas São Paulo na primeira década do Século XX, onde hoje está o Clube de Regatas Tietê.

Referência bibliográfica:
François Beaudouin – Paris à gré d’eau – Musée d’intérêt national de la batellerie
Tietê: O Rio do Esporte – HENRIQUE NICOLINI – Editora Phorte – 2000

*Sílvio dos Santos é engenheiro do Laboratório de Transportes e Logística Labtrans – UFSC.

Regata de remo nas águas límpidas do Rio Tietê, ao fundo a Ponte Grande sendo atravessada pelo bonde que servia o bairro de Santana, antes da década de 40.

Regata de remo nas águas límpidas do Rio Tietê, ao fundo a Ponte Grande sendo atravessada pelo bonde que servia o bairro de Santana, antes da década de 40.

Referência bibliográfica:
François Beaudouin – Paris à gré d’eau – Musée d’intérêt national de la batellerie
Tietê: O Rio do Esporte – HENRIQUE NICOLINI – Editora Phorte – 2000

*Sílvio dos Santos é engenheiro do Laboratório de Transportes e Logística Labtrans – UFSC.

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