Fora da caixinha

A ampliação da rede de piscinões e a transformação de cada um deles em pequenas estações de tratamento traria alívio para a escassez de água

Respeitados organismos internacionais nos advertem de que as mudanças climáticas causarão cada vez maiores períodos de estiagem e chuvas intensas de curta duração. Vamos conviver simultaneamente com a insuficiência de chuvas para o abastecimento público e com enxurradas e inundações.

Enquanto insistirmos em pensar quadriculado, cada coisa na sua caixinha, ambos os problemas nos ameaçarão. Na região metropolitana de São Paulo, é preciso reorientar a gestão das águas. As discussões do abastecimento e do controle de vazão e enchentes devem ser pensadas de forma complementar.

Nas estimativas do governo estadual, até 2035 o consumo de água na região metropolitana deve crescer 40%. Para supri-lo, o governo tem investido na busca de água cada vez mais longe. Está em andamento um projeto para trazer água captada a mais de 80 km de distância, no vale do Ribeira, a um custo de R$ 2,21 bilhões para captar e tratar 4,7 m³ por segundo, o que equivale a apenas 7% do que é tratado hoje pela Sabesp. É muito pouca água, em face da estimativa de que precisaremos de mais 30 m³ em 2035. Existem medidas inovadoras a serem colocadas em pauta.

Os piscinões foram concebidos como estruturas que lidam com as chuvas com o objetivo estrito de reter as grandes vazões, permitindo que a água coletada se esvaia aos poucos. Buscam cumprir de forma artificial o papel das florestas, brejos e meandros de rios, que minimizavam enchentes e desapareceram com a lamentável pavimentação indiscriminada da cidade. Se funcionam bem, os piscinões permitem que as águas de chuva escoem sem transtornos, exceto o lixo que fica neles acumulado. Mas trata-se de uma lógica dissociada da evidente necessidade de água na metrópole.

Recentemente, o governo do Estado licitou a construção de mais sete piscinões e a gestão de outros 38 por 20 anos. A licitação, ao preço de R$ 3,8 bilhões, acabou por ser cancelada. Criou-se, ainda que involuntariamente, uma oportunidade para que se revejam essas aberrações.

A região metropolitana de São Paulo já tem quase 60 piscinões em funcionamento, construídos pelo Estado; a maior parte deles é operada por prefeituras. Há previsão de construção de ao menos mais dez pelo Estado e outros tantos por prefeituras. Serão pelo menos 15 mil m³ de água retidos periodicamente e depois lançados lentamente nas drenagens, retardando o tempo de chegada nos pontos baixos.

A construção dessas estruturas se faz com foco unicamente no controle de vazões de cheias, uma visão parcial e estreita das águas. Cada piscinão poderia passar a contar com um complemento valioso: o tratamento das primeiras águas de cada chuva, as que chegam poluídas, tendo enxaguado as ruas! Esta água, se e quando tratada nos piscinões, deixará de carrear poluição para os rios e estará apta a ser usada para diferentes fins. A lavagem de ruas, de veículos e trens coletivos, a irrigação e outros usos menos nobres hoje são supridos por água potável, situação que não se justifica.

A ampliação da rede de piscinões e a transformação de cada um deles de dosador de vazão em reprocessador de água, com pequenas estações de tratamento, traria enorme alívio ao problema da escassez de água. Em alguns locais, o piscinão a céu aberto com adequadas plantas aquáticas na superfície poderia recuperar as funções depuradoras das nossas antigas várzeas.

O uso múltiplo da água assim recuperada permitiria a requalificação e o saneamento de córregos e rios, a utilização industrial e comercial da água de reúso e também o bombeamento da água de melhor qualidade para as represas de abastecimento público.

CELSO MORI, 69, advogado, é presidente da Associação Águas Claras do Rio Pinheiros
STELA GOLDENSTEIN, 61, é diretora executiva da mesma associação. Foi secretária estadual e municipal do Meio Ambiente de São Paulo (gestões Mário Covas e Marta Suplicy, respectivamente)

Fonte: FOLHA DE SÃO PAULO – domingo, 18 de maio de 2014

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