A cegueira histórica em relação à gestão e conservação da água deixou a região mais populosa do Brasil às portas de uma calamidade pública – Página 22 – março 2015

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FATORES DA CRISE

Nos últimos meses, milhões de paulistas vêm acompanhando uma contagem regressiva macabra: a baixa do nível do Sistema Cantareira. Mas como foi que chegamos ao ponto de deixar faltar algo que, literalmente, cai do céu? Afinal, desde o ensino básico, sabemos que o Brasil é dono da maior reserva de água doce do mundo com mais ou menos 12% do total global.

Mas, além do território extenso, 80% dessa água toda está concentrada na Amazônia . Ou seja, a abundância geral não se reflete, necessariamente, em cada uma das regiões.

Isso é notório no Semiárido, mas em São Paulo poucos percebem que a situação também não é nada confortável. O Relatório de Situação dos Recursos Hídricos da Bacia do Alto Tietê apontou que, em 2010, a disponibilidade de águas superficiais estava em 135,8 metros cúbicos ao ano por habitante. A ONU considera qualquer número abaixo dos 1.500 m³/habitante como “crítica”.

Para o bem e para o mal, temos vivido dentro de uma zona de conforto. Basta olhar em um mapa-múndi para perceber que a linha do Trópico de Capricórnio corta regiões
predominantemente áridas, como os desertos do Atacama (Chile), o da Namíbia e o Kalahari (no sudoeste da África, que abrange o leste da Namíbia, boa parte de Botswana e ainda o norte da África do Sul) e o Australiano.

A única exceção está na América do Sul do lado de cá dos Andes. O que tem salvado a “pátria” esse tempo todo é a Amazônia. É de lá que vem grande parte da umidade que
alimenta as chuvas que caem – ou, ao menos, deveriam cair – nos estados do Centro-Oeste Sudeste e Sul. O fenômeno é tão significativo que ganhou nome específico: rios voadores (mais em riosvoadores.com.br).

Com mais de 760 mil quilômetros quadrados da área original da Amazônia abatidos e
outros 1,2 milhão degradados, há quem creia que estamos perto de um colapso. Esta é a mensagem central do relatório O Futuro Climático da Amazônia do pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Antonio Donato Nobre.

“O efeito do desmatamento na redução de chuvas é consenso. Foi previsto mais de 20
anos atrás e está sendo observado hoje”, aponta Nobre. Segundo o cientista, os efeitos mais agudos estão aparecendo só agora porque sistemas complexos autorregulados “têm capacidade compensatória”. “Ultrapassada essa capacidade, entra em colapso”, alerta.

Para agravar o quadro, já não temos mais as florestas locais que poderiam amenizar os
efeitos de uma redução na umidade da Amazônia. A edição mais recente do Atlas dos Remanescentes, elaborado pela SOS Mata Atlântica, mostra que restam só 12,5% da Mata Atlântica original. E a situação não só se vem agravando como afeta áreas das quais nossa segurança hídrica depende. “Pelos últimos dez anos, Minas Gerais foi o líder do desmatamento e é lá que estão as bacias que abastecem o Cantareira”,
confirma a coordenadora da Rede das Águas da organização, Malu Ribeiro.

MODELO SUICIDA

Para Malu, a relação entre conservação e água ainda “é pouco valorizada” e isso favorece um modelo econômico que ignora solenemente a segurança hídrica. “Os benefícios são excludentes, mas o desastre que eles causam são socializados”, analisa.

A postura do agronegócio é um exemplo desse descompasso. Embora o setor dependa da água, ela mal é levada em conta no planejamento dos produtores. “A agropecuária não se enxerga como uma atividade de gestão dos recursos ambientais. A visão é de curto prazo com tudo medido em toneladas por hectare”, critica o gerente de certificação do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), Luís Fernando Guedes. “Existe a noção de que qualquer hectare que não esteja produzindo representa perda para o agricultor. Falta entender que a água é algo produzido dentro da fazenda”, diz o entrevistado ao analisar a postura pouco amistosa do agronegócio em relação à conservação ambiental.

E com 333,7 milhões de hectares – 38,8% do território nacional – nas mãos do setor
agropecuário , essa é uma postura perigosa. A quase extinção do Cerrado, que já teve 44% de sua área desmatada a reboque da expansão da fronteira agrícola, é outro problema. Embora menos chamativo do que o desmatamento em florestas, a degradação desse bioma também não está saindo nada barato, como comprova a seca nas nascentes do São Francisco do ano passado.

Há também uma série de problemas mais imediatos, entre os quais o nível assombroso
de perdas na distribuição e o enorme contrassenso de ver a água faltar em uma cidade
onde correm três rios de porte: o Tietê, o Pinheiros e o Tamanduateí. “Chega a ser uma vergonha a gente discutir escassez hídrica em São Paulo”, critica o arquiteto Gabriel Kogan.

“Esse é resultado de um processo de negligência que olha a água como problema e não como virtude urbanística”, opina.

Essa negligência começa com a histórica falta de cuidado que temos com água depois
de usada. A perda é dupla: não só jogamos fora um líquido que poderia ser reaproveitado como, no caminho, ele contamina mais água.
“Privilegiou-se o acesso à água tratada, mas esquecemos dos esgotos (…) o que compromete fontes importantíssimas”, diz o presidente do Instituto Trata Brasil, Édison Carlos. “Faz parte de uma visão antiga da gestão de água, de que o trabalho é trazer água limpa e jogar o esgoto fora o mais rápido possível”, reforça José Carlos Mierzwa, diretor do Centro Internacional de Referência em Reúso de Água (Cirra). “Com mais investimento em tratamento é possível reduzir a demanda sobre mananciais que, hoje, são superexplorados”, aponta.

Desde a antiguidade clássica, a forma como as cidades se relacionam com a água
segue essa mesma fórmula: caso de Roma com seus 10 aquedutos e sua Cloaca Maxima, como era chamada a rede de esgoto que drenava as águas servidas de Roma para o Tibre. Sem contar que esse caminho nos desvia do necessário esforço para fechar o ciclo d’água. “Desde o começo, a noção que deveria ter prevalecido
é a de reutilizar a água dentro de um ciclo infinito”, diz Kogan.

Para resolver essa engenharia, seria preciso saldar décadas de déficit de planejamento urbano. “Só vamos conseguir despoluir as águas [urbanas] se recuperarmos o território que gera essa poluição. Os problemas urbanos são muito imbricados e, todos eles, levam à mudança na quantidade e qualidade da água”, diz Stela Goldenstein, diretora da Associação Águas Claras do Rio Pinheiros.

CONSTRUÇÃO DA NARRATIVA

Talvez o primeiro passo para driblar a crise seja parar de negar o problema. “Estamos no meio de um processo de negação que não é um fenômeno intrapsíquico, mas um processo coletivo”, afirma a psicóloga Camila Pavanelli. “Como você faz para continuar levando uma vida normal quando está encarando uma situação de colapso total?”, questiona. “A negação tornou-se nossa política de governo.” Para conseguir lidar com os seus próprios receios, Camila lançou há alguns meses o Boletim da Falta d’Água .

O coordenador do Programa de Psicologia Social da PUC-SP, Odair Furtado, acredita que o choque de realidade pode ser benéfico para a construção de uma consciência mais ativa. E afirma: “Por enquanto ainda não ‘caiu a ficha’ porque, fora do Nordeste, não temos uma memória coletiva do que uma estiagem como esta significa. Estamos construindo agora essa narrativa. Se o problema se agravar, a experiência vai marcar nossos filhos e netos”.

No popular, teremos que aprender pela dor. Infelizmente.

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