• Córregos escondidos: uma São Paulo oculta

    Entrevista com os membros do projeto Rios e Ruas Luiz de Campos Júnior e José Bueno. Campos, 49 anos, é netweaver em redes de aprendizagem colaborativa, e sócio-fundador do Instituto Futuro Educação. Bueno é arquiteto e urbanista graduado pela FAU/USP, e coordena o projeto Tintim de educação não-formal entre gerações.

    O que são os córregos escondidos?
    José_ São centenas de córregos que formam uma fantástica hidrografia de 1500 quilômetros de extensão, que foram canalizados, soterrados e exilados da percepção do paulistano. A opção pelo desenvolvimento da cidade, movida fortemente pela indústria do automóvel e pela ganância das construtoras, cobriu no último século 90% de nossos rios e córregos. Ao contrário do que muitos pensam, esses córregos estão vivos, pois não é possível matar um rio. Eles foram aprisionados em galerias, soterrados por ruas e avenidas e a maioria sofre com os esgotos. Foram enterrados vivos. Queremos contribuir sensibilizando a população da cidade para impedir que novos córregos sejam enterrados e recuperar tantos córregos quanto formos capazes de libertar.

    Como a existência dos córregos escondidos está relacionada à recorrência das enchentes em São Paulo?
    Luiz_ É no verão, época das chuvas em nossa cidade, que temos maior oportunidade de perceber dois fatos irrefutáveis: a existência dos córregos escondidos e a forma equivocada como a urbanização de São Paulo trata seus córregos. Os chamados “pontos de alagamento intransitáveis”, tão comuns durante e após as pancadas de chuvas de verão, estão invariavelmente relacionados à existência de rios e córregos escondidos.

    A maior parte dos córregos foi canalizada, e sobre suas galerias foram construídas ruas e avenidas de “fundo de vale”. Frequentemente ouvimos que, por exemplo, há inundações na avenida Pompéia com a rua Turiassu, na avenida 23 de Maio junto ao Parque do Ibirapuera ou na Praça da Bandeira. Mas não sabemos mais que se trata de cheias dos córrego da Água Preta, Caaguaçu, ou da foz do córrego Itororó e do córrego do Bixiga no córrego Saracura.

    Como a arte pode recuperar a memória dos córregos ocultos?
    José_ Toda expressão de arte pode e deve ser uma poderosa aliada para nos lembrar que os córregos ocultos estão vivos e passam sob nossos pés ao longo de toda a cidade. Idealizamos uma cidade que não esconda seus córregos como quem esconde algo sujo. A arte pode ajudar a libertar centenas de córregos, dando vida e expressão à presença das águas na cidade. Como o paulistano se comportaria sabendo que o Saracura, que o córrego das Éguas, o Uberabinha, o Água Preta, o Sapateiro e muitos outros córregos nunca deixaram de existir e talvez sejam, junto à colinas, vales e árvores, os verdadeiros donos de nossa cidade?

    Como identificar os córregos escondidos?
    Luiz_ A forma pela qual a cidade de São Paulo evoluiu e seu rápido e intenso grau de urbanização, contribui para que seus habitantes sejam “alienados” do ambiente natural em que se desenvolveu: clima tropical, proximidade com o litoral, domínio da Mata Atlântica, bacia sedimentar encaixada em um planalto cristalino.

    Contudo, quando nos predispomos a “perceber“ esse ambiente e abrimos nossa percepção para o que “havia” antes desta recente urbanização, podemos nos reapropriar desse ambiente, mudando totalmente a maneira de ver nossa cidade.

    Além das já citadas áreas de alagamentos frequentes, ainda hoje podemos reconhecer regiões de cabeceiras de córregos da cidade a partir da altitude e da forma do terreno, encontrar nascentes buscando árvores e plantas indicativas de umidade (como a Taióba) e identificar os cursos de córregos observando o traçado e a inclinação de ruas, vielas e becos.

    (3 comentários)

    3 respostas a Córregos escondidos: uma São Paulo oculta

    1. Daniela Rizzi disse:

      Bacana a entrevista com o Luiz! Fico feliz de ver que o pessoal está usando a internet e as redes sociais e se articulando cada vez mais para chamar a atenção para o tema.

      Acredito que com o tempo a idéia de que a rica rede de cursos d’água de São Paulo é uma oportunidade imensa para melhoria da qualidade de vida dos paulistanos — e não um problema.

      Por enquanto ainda é motivo de dificuldades, do mesmo jeito que aqui na Europa os rios também foram um problema durante mais de uma centena de anos, para então começarem a serem vistos como elementos extremamente valorizados da paisagem urbana, o espaço público por unanimidade.

      Ainda vai levar um tempo, mas sinto que a percepção está aumentando. Há muito mais gente hoje reclamando do mau cheiro do Pinheiros do que antes. Isso é um bom sinal. Quanto mais incomodar, maiores são as chances de mobilização para mudar a situação.

      Aqui não vale o lema “os incomodados que se mudem”, mas sim “vamos mudar para melhor o que incomoda”.

      Abraço Luiz,
      Daniela

      • Luiz de Campos Jr disse:

        Olá Daniela.

        Tenho a mesma percepção sobre o aumento do interesse das pessoas sobre os cursos d’água da nossa cidade – assim como sobre a melhoria do ambiente urbano em geral.

        Trabalho com o tema dos “Rios e Ruas” desde o início da década de 90 e considero que hoje é muito maior o entendimento de que a defesa de nossos rios e córregos é essencial para a melhoria da vida na cidade.

        Obrigado pela mensagem.
        Abraço, Luiz CJr.

    2. Leonardo Cuevas disse:

      Como ciclista urbano, procuro acompanhar o leito dos corregos submersos como forma de otimizar meus percursos. Córregos Mandaqui, Cabuçu de Baixo, do Horto, definem meu caminho.
      Procurei no site da prefeitura um mapa hidrográfico urbano, só consegui uma imagem de baixissima resolução que nada aporta.
      Há algum mapa com esta informacao disponível?



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